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Quem quer ser milionário?

Quem já não teve aquele papo no escritório ou na loja onde trabalha, sonhando com o dia em que, ganhando na Mega-Sena, poderá livrar-se daquela rotina insuportável? Os planos são sempre os mesmos: dizer umas poucas e boas para o chefe, mostrar a lingua (ou outra coisa não publicável) para aquele cliente chato, poder fazer aquilo que realmente gosta, sair viajando pelo mundo…. enfim, sonhos de liberdade e felicidade.

A questão é: quanto seria necessário para comprar a liberdade? De quanto teria que ser esse prêmio, para que o indivíduo se arriscasse a abrir mão de seu atual emprego, e pudesse se dedicar ao “dolce far niente”? Claro, não existe uma resposta única. Cada um tem um estilo de vida, que depende de sua origem, sua estrutura familiar atual, sua idade. Aqueles que nasceram em berço de ouro vão querer mais. Os que têm uma família para sustentar, não vão se arriscar por pouco. E os mais velhos, por já ganharem mais nos seus empregos, colocam a barra mais para cima.

De maneira genérica, este cálculo deveria ser feito da seguinte forma: considere a sua atual renda anual. É importante fazer o cálculo com a renda anual, considerando 13o, abono de férias e eventuais bônus extras. Também considere o FGTS depositado em seu nome, e a eventual contribuição ao fundo de pensão que a sua empresa deposita em seu nome. Apesar de você não ter acesso a esse dinheiro, ele um dia será seu. Considerando tudo isso, digamos que sua renda anual seja de R$ 100.000 por ano, já líquido de impostos. Ou seja, R$ 100 mil limpos na sua mão, todo ano. Este é o valor com o qual você está acostumado, e a partir do qual o seu orçamento está montado. Provavelmente “não dá para nada”, “é uma miséria”, “é uma piada”, e epítetos desse tipo.

Pois bem. Imagine agora que, do dia para a noite, você consegue um aumento de 50% nesse salário. Bom, né? E o que é melhor: não precisa mais trabalhar! Você passa a ganhar R$ 150.000 por ano, sem trabalhar. Como isso? Ganhando na loteria! E aí entra a nossa conta. Hoje, o rendimento de um investimento bem conservador (um Fundo DI, por exemplo), está por volta de 12% ao ano (considerando uma taxa de administração de apenas 0,25% ao ano – fundo para milionário, né?). Considerando um imposto de renda de 15% sobre o rendimento, a taxa cai para 10,2% ao ano – vamos arredondar para 10% ao ano. Se a inflação esperada é de 4,5% ao ano (meta de inflação do governo, vamos acreditar que vai ser cumprida no longo prazo), a rentabilidade real líquida passa a ser de 5,5% ao ano. Fazendo a conta inversa, para obter R$ 150 mi/ano, seria preciso um patrimônio de aproximadamente R$ 2,7 milhões (R$ 150 mil divididos por 5,5%). Estes R$ 2,7 milhões aplicados neste fundo DI, renderiam R$ 150 mil ano, ajustados todo ano pela inflação de 4,5%.

Então, para poder dar um pé no traseiro do seu chefe, você que ganha hoje R$ 100 mil precisaria de uma Mega-Sena de R$ 2,7 milhões. Beleza? Nem tanto. Vejamos dois problemas nesse raciocínio.

1) A primeira grande falha nesse raciocínio é a suposição de que as taxas de juros no Brasil permanecerão neste patamar estratosférico para o resto de sua existência. Isso simplesmente não vai acontecer. Acredite-me, as taxas de juros reais (acima da inflação) vão continuar caindo no Brasil, ainda que com altos e baixos, até chegar em patamares civilizados. E aí, o seu patrimônio não vai mais conseguir gerar os R$ 150 mil/ano que você quer.

2) A segunda grande falha é o completo desconhecimento da Teoria do Gás, uma das grandes contribuições que eu, Dr. Money, humildemente fiz para a Dinheirologia. Veja no post O Orçamento Doméstico e a Teoria do Gás, a sua fundamentação teórica e empírica. Pois bem, segundo a Teoria do Gás, os seus gastos não são estáticos. Pelo contrário, eles se expandem, até ocupar totalmente o recipiente, que é o seu orçamento. Assim, em um primeiro momento, você que ganhava R$ 100 mil/ano, se esbalda com R$ 150 mil. Mas a festa dura pouco. Você aos poucos vai gastando mais do que antes: uma casa melhor, um carro melhor, hábitos de consumo mais requintados e… pimba! você está quebrado de novo! Obviamente, você pode tentar evitar este problema colocando um objetivo maior para dar um pontapé no traseiro do seu chefe: ao invés de R$ 2,7 milhões, R$ 5 milhões, ou até R$ 10 milhões! Mas, acredite-me: a Teoria do Gás funciona sempre, independentemente do tamanho do recipiente. Os seus gastos acabarão chegando lá, mais cedo ou mais tarde. E, quando chegarem, você estará desempregado e tendo no curriculum a experiência de ter sido “ganhador de loteria”. Nem “ex-BBB” é tão deprimente. A propósito, leia a edificante história do ex-jogador Muller, contada no post Muller e a Teoria do Gás.

Quero dizer, com tudo isso, que ganhar na loteria é ruim? De jeito nenhum! Mas pense duas vezes antes de sapatear na mesa do chefe. Você nunca sabe o dia de amanhã.

Quem quer ser milionário

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10 Comentários

  1. Roberto Pina Rizzo disse:

    Este post mostra a falácia que é “juntar dinheiro para a aposentadoria”. Senão vejamos: é preciso acumular uma quantia enorme, a custa de razoável privação, para depois ter um rendimento real pífio e, ao morrer, deixar todo o bolo para trás (isto se não houve avanço no principal, dilapidando-se o montante e torcendo para que ele não acabe antes do dia da morte).
    Penso que devemos juntar ao máximo sim, viver com 70% de que se ganha, por exemplo, mas a verdadeira máquina geradora de recursos para a velhice é o empreendimento. A lâmpada que nos iluminará à noite é a empresa que construímos de dia, entre os 40 e 60 anos. Você tem 20 anos para fazer isto, meu velho. Até os 40 já deve ter acumulado experiência, conhecimento e capital social suficientes. Pois então é hora de empreender. Após os 60, se você fez a coisa certa, sua criação andará sozinha auferindo-lhe um lucro que lhe garanta a sobrevivência e ainda gerando empregos, produção e riqueza para o país.
    Não é para todo mundo? Pode ser… Para os funcionários públicos que cravam seus dentes nas tetas do Estado, com suas aposentadorias integrais, minha ideia certamente é de lunático… Para os que contam com planos de aposentadoria pagos por multinacionais como benefício, também… Mas para você, que é PESSOA QUE FAZ, eis o caminho.

  2. Anônimo disse:

    Marcelo, não quero ser inconveniente, mas ainda tenho dúvidas. Claramente, o preço de uma NTN-B varia dia a dia (usando o tal desconto de todos os fluxos de caixa futuros a valor presente).

    Porém meu ponto é o seguinte: um “milionário” que invista um milhão em uma NTN-B-2045 hoje tem a garantia de receber entre 50 a 60 mil por ano de cupom até 2045, sendo esse “cupom” reajustado anualmente pelo IPCA. Ou seja, os pagamentos dos cupons não são afetados pela marcação a mercado do título.

    Pelo menos foi isso que entendi lendo o seguinte documento que está no site do TD:

    http://www.tesouro.fazenda.gov.br/tesouro_direto/download/metodologia/ntnb.pdf

    Este documento explica que o cupom é calculado sobre a tal VNA (Valor Nominal Atualizado), que é atualizado mensalmente (eu acho) com a variação do IPCA.

    Ou seja, quando você compra uma NTN-B você sabe que seu cupom semestral será:

    cupom= VNA * (sqrt (1 + taxa_juros) – 1)

    onde taxa de juros é a taxa com a qual comprou a NTN-B.

    • Marcelo Guterman disse:

      Não está sendo inconveniente de maneira alguma. E você está correto (aliás, foi por isso que coloquei na minha resposta anterior o “parcialmente” correto, pois esta parte está certíssima). A minha questão é outra: ele não consegue viver só com o cupom que recebe semestralmente. Lembre-se que ele precisa de 150 mil por ano. Por isso, ele precisa vender uma parte dos títulos a cada mês, para fazer dinheiro. E então, nesse venda, ele pode sofrer o efeito da marcação a mercado.

      • Anônimo disse:

        Só para entender: a marcação a mercado de NTN-B adquirida com juros de 6% aa aprox. não SOBE?
        Minha percepção é que resgates parciais só são problema se os títulos foram comprados com juro baixo e os juros subiram. No caso brasileiro acho impossível seguirmos indefinidamente com 12%…

        • Marcelo Guterman disse:

          Prezado anônimo, lembre-se que as NTNs-B estão sendo negociadas hoje a IPCA mais algo entre 5,5% e 6% ao ano, dependendo do vencimento. Concordo que esta taxa é alta, e que deveria cair ao longo do tempo. E acho que até vão cair, no longo prazo. Mas podem subir antes de cair. E então o nosso milionário pode ter uma perda se tiver um papel com vencimento longo.

  3. Anônimo disse:

    Marcelo, acho que ele poderia “travar” esse rendimento real de 5% por pelo menos uns trinta anos comprando uma NTNB-2045.

    • Marcelo Guterman disse:

      É verdade, Anônimo. Mas é preciso tomar um certo cuidado com um título longo como essa NTN-B 2045. Como o nosso milionário precisa de uma parte desse dinheiro todo mês, ele ficará sujeito às grandes oscilações deste título. A trava funciona na data do vencimento, mas o valor do título no meio do caminho é sujeita às oscilações do cupom. Abraço e obrigado pela observação.

      • Anônimo disse:

        Marcelo: fiquei na dúvida. A variação de uma NTB-N só impacta quem vendê-la antes do vencimento. Já os cupoms semestrais são sempre calculados com base na taxa de juros acertada na compra mais IPCA. Estou errado?

        • Marcelo Guterman disse:

          Você está parcialmente correto. Os cupons são pagos a uma taxa fixa (raiz quadrada de 6% a cada semestre) independentemente da taxa do título acertada no dia da compra.
          Quando eu mencionei “oscilações do cupom”, não me referi a este pagamento fixo, mas à taxa negociada no mercado, que recebe o mesmo nome. Esta taxa negociada no mercado serve para descontar todos os fluxos de caixa futuros a valor presente, para daí calcular o preço do papel hoje. Cada fluxo de caixa futuro é calculado de maneira fixa, a 6% ao ano (raiz de 6% ao semestre). Assim, você trás cada um desses fluxos (que têm um valor já fixo, e que não muda) para hoje, descontando por uma taxa que varia dia a dia no mercado. Espero que tenha ficado mais claro.

  4. Roberto Pina Rizzo disse:

    2,7 milhões para garantir 150 mil por ano e ainda sem sustentação em tal patamar, como bem explicou o Guterman… Pois eu lhe digo: com ZERO dá para conseguir 250 mil por ano, líquidos. Pergunte-me como.

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