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Por que cansei da Petrobras

A Petrobras é, de longe, a maior empresa do Brasil. Seu faturamento foi de R$ 212 bilhões em 2010. A segunda maior é a Vale, com faturamento de R$ 83 bilhões. Ou seja, cerca de 39% do faturamento da Petrobras.

No entanto, em valor de mercado, a coisa muda de figura. A Petrobras é a maior empresa da bolsa, com capitalização de R$ 315 bilhões. A Vale vem em segundo lugar, com R$ 225 bilhões. Ou seja, 70% da capitalização da Petrobras. Faturando apenas 39% do volume faturado pela Petrobras, a Vale consegue valer 70% da Petrobras em bolsa. A coisa fica ainda pior quando vamos para a 3ª maior empresa da bolsa: Ambev. A Ambev tem capitalização de R$ 180 bilhões (57% da Petrobras), e fatura R$ 23 bilhões (11% da Petrobrás). E a coisa continua assim.

Para entender a origem dessa distorção, vejamos o gráfico a seguir:

Neste gráfico, podemos observar o comportamento de Petrobras em relação ao Ibovespa, com os dois ativos começando em R$ 100 no dia 02/01/1986. Petrobras é representada pela linha azul, enquanto o Ibovespa fica constante em R$ 100 ao longo do tempo. Assim, se Petrobras está em R$ 200, significa que dobrou de preço em relação ao Ibovespa. Em outras palavras: se você aplicou R$ 100 na carteira do Ibovespa, e R$ 100 em Petrobras, você continuaria com os mesmos R$ 100 no Ibovespa, enquanto o seu investimento em Petrobras teria dobrado para R$ 200.

Pois bem: até o início dos anos 2000, a Petrobras se comportava em relação ao Ibovespa dentro de uma faixa previsível: batia R$ 200, e depois voltava para os R$ 100. A coisa muda de figura depois da quebra do monopólio da Petrobras, no final de 1997, com a chamada “Lei do Petróleo”. Os resultados ainda demoraram a aparecer, pois a empresa precisou de um tempo para se adaptar. Ganhou eficiência, e começou a mostrar resultados no início dos anos 2000. O investimento de R$ 100 transformou-se em R$ 600 no final do governo FHC.

A empresa continuou a se valorizar durante o primeiro mandato do governo Lula, atingindo R$ 800 no final de 2007. Foi aí então que o pré-sal foi anunciado, fazendo o papel saltar até o pico de R$ 1.200, em março de 2009. Então, a música parou por algum motivo, e o papel desceu a ladeira até R$ 600 no final do governo Lula, mesmo nível do final do governo FHC. O investidor, espantado, se pergunta: o que aconteceu????

A pista pode ser encontrada em um trecho do comunicado da Moody’s que acompanhou o rebaixamento da nota de crédito da Petrobras, em junho de 2009: “o grau de dependência entre a Petrobras e o governo brasileiro tem aumentado consideravelmente no último ano à medida que o potencial do pré-sal tem evoluído, como indicado pelo acesso significativo a empréstimos do banco federal BNDES”.

Eis aí: o pré-sal, que tinha tudo para ser a redenção do investidor de Petrobras, na verdade foi a sua desgraça. Ninguém discute o potencial de riqueza do achado. No entanto, a riqueza está a milhares de quilômetros debaixo do mar. Para retirar de lá, é necessária uma montanha de dinheiro. E é aí que mora o perigo: como conseguir este dinheiro?

Inicialmente, como chama a atenção a Moody’s, a Petrobras abusou dos empréstimos do BNDES. Mas esta fonte de recursos tem um limite: a alavancagem da empresa. Não dá para construir um projeto deste porte na base da dívida. Foi então que começou a ficar claro para o mercado que a empresa deveria vir a mercado para se capitalizar. Como acionista majoritário, a União deveria comparecer com a parte do leão. Mas todos sabem que a União não tem dinheiro nem para comprar clips, quanto mais para tirar petróleo das profundezas. Qual foi então a idéia genial? A União entraria com o petróleo a ser retirado, enquanto o dinheiro viria dos acionistas minoritários! Como cereja do bolo, a capitalização foi maior do que o necessário, sendo o excedente utilizado pela Petrobras para pagar à União pela cessão dos barris para a empresa, reforçando o superávit primário do governo. O resultado desse arranjo se viu nas cotações: desde que começou a ficar claro o plano maligno do governo brasileiro, a Petrobras perdeu 50% em relação ao Ibovespa.

Além disso, o segundo mandato Lula e o início do mandato Dilma marcam um aprofundamento do uso da Petrobrás como instrumento de políticas governamentais:

– Os projetos da Petrobras precisam respeitar um nível mínimo de nacionalização dos equipamentos, para “estimular a indústria nacional”. Isso significa equipamentos mais caros, de menor qualidade, além de atrasos no cronograma. Como cheguei a essa conclusão? Simples: sem a concorrência externa, o empresário brasileiro, que, ao contrário da Petrobras, está preocupado com lucros, procurará investir o mínimo para obter o máximo. É a lógica do capitalismo sem concorrência.

– As operações da Petrobras na Bolívia foram nacionalizadas, sem a devida compensação. E a Petrobras tem um projeto de refinaria em Pernambuco, em sociedade com a PDVSA, da Venezuela, que não consegue cumprir a sua parte. Resultado: o projeto não sai do papel. É a Petrobras servindo aos interesses da política externa brasileira, em detrimento de seus próprios resultados.

– Os preços dos combustíveis são administrados de modo a servirem como instrumento para o controle da inflação. Este, aliás, foi o principal motivo que fez os resultados da Petrobras no 4º trimestre virem tão fracos.

Se o governo quer usar a Petrobras para fins outros que não a geração de lucros, é um direito seu, dado que é o acionista majoritário. Só não continue contando com o meu dinheiro para financiar os seus objetivos.

 

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6 Comentários

  1. Arlindo disse:

    Mais de 14 meses depois, o texto é bem real e poderia até ser refeito com mais argumentos q a BR vive seus piores anos. Pode ser até que ela não sobreviva no futuro, daqui há 10 anos, afinal o petroleo do pré-sal é caro e o preço varia muito. O PT tá de parabens no seu objetivo de destruir a empresa. É claro q se a BR vier à concordata no futuro, o governo vai ajudar. E com o dinheiro de quem nao é socio.
    Muito bom o artigo.

  2. bruno disse:

    Eu vendi todas as minhas ações da PETR4. Prejuízo grande. Nunca mais invisto em empresas que tenha o Governo como sócio.

    • EuReclamo disse:

      Pode ter certeza que se a cotação voltar a níveis de 40 reais, vão vender a ideia nas capas das revistas de maior empresa do mundo e certamente você vai correndo comprar.

      Afinal a manada perdedora faz sempre isso: compra no topo, vende no fundo.

  3. Rafael Pereira disse:

    Parabéns por ter aberto os olhos para esses fatos.Também já mandei a Petrobras pra puta que pariu há muito tempo.

  4. Jônatas R Silva disse:

    Guterman,
    Falta transparência e governança corporativa a empresa.

    Abraço.

  5. Sir Income disse:

    Guterman,

    Além da Petrobras, teve a troca do presidente da Vale por imposição do governo.

    Difícil investir em ações assim. Desanimador!

    Abraços,
    Sir Income
    sirincome.blogspot.com

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