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NTN-F x LFT: o que escolher?

No post NTN-F x NTN-B: o que escolher? prometi um outro comparando os títulos prefixados com os títulos atrelados à variação da SELIC. Na verdade, eu já abordei este assunto em um outro post (A Relação Entre a Taxa SELIC e o Retorno dos Investimentos em Renda Fixa), em que explico como são formadas as taxas de juros no mercado de títulos prefixados.

Vejamos o mercado de NTN-F e LFT hoje (aqui). A taxa de uma NTN-F vencendo em 02/01/2017 estava pagando 12,41% (o número pode ser um pouco diferente no momento em que você clicar no link, pois a tabela é atualizada diariamente). Já a taxa SELIC foi estabelecida na última reunião do COPOM em 12,25% (na verdade, a SELIC praticada no mercado de títulos normalmente tem um desconto em relação à taxa alvo estabelecida no COPOM, e atualmente está em 12,18% ao ano. Mas, para simplificar o raciocínio, vamos usar a taxa estabelecida no COPOM). Ou seja, hoje, aparentemente, vale mais a pena comprar um título prefixado, que está pagando 12,41%, do que um título atrelado à SELIC, que está rendendo 12,25%. Mas as aparências enganam! A sua decisão pode até ser, no final, optar pelo título prefixado. Mas que seja pelos motivos certos! Vejamos então.

Um primeiro ponto importante é entender que, quando você compra um título prefixado, você está prefixando o seu rendimento.

– Ah vá, Guterman! Pra saber isso, não preciso ler o seu blog…

Calma, qualquer raciocínio mais complicado deve ser construído a partir das coisas mais óbvias. Então, vamos lá: você compra uma NTN-F hoje que vai vencer em 02/01/2017, e receberá uma remuneração de 12,41% ao ano ou 0,0464% ao dia. Considerando que estamos a 1.445 dias úteis do vencimento, isso significa uma remuneração total de 95,57%. Vamos aqui assumir que você não vai vender o papel até lá. Caso contrário, a taxa final pode ser diferente (veja mais detalhes no post Você Sabe Porque Pode Perder Dinheiro Aplicando na Renda Fixa? Então Entenda).

Já a LFT tem a sua taxa formada diariamente, e que vai se acumulando ao longo do tempo. A única certeza que temos é que essa taxa vale hoje 12,25% ao ano, o que equivale a aproximadamente 0,0459% ao dia de remuneração. No próximo COPOM, o BC provavelmente eleverá o alvo da taxa SELIC para 12,50%, ou 0,0468% ao dia. A pergunta do milhão é a seguinte: acumulando essa taxa diariamente, obteremos mais ou menos que os 95,57% da NTN-F? É com base na resposta a esta questão que você vai tomar a sua decisão. Vejamos alguns cenários possíveis:

1) Cenário “Banco Central Durão”: o Banco Central age para realmente trazer a inflação para a meta em 2012. Dadas as condições atuais, isso significaria aumentar ainda mais a SELIC, talvez para 13,50% ao ano nas próximas 5 reuniões do COPOM, totalizando um aumento de 1,25% até janeiro do ano que vem. Digamos que, com isso, a inflação realmente caia, e então o BC tem espaço para derrubar a SELIC para, digamos, 10% ao ano. Esta queda da SELIC ocorreria a partir do segundo semestre de 2012, em 7 reuniões seguidas, com 0,50% de corte da SELIC em cada reunião. A partir daí, a SELIC permaneceria neste nível até o vencimento da NTN-F.

– Nossa, Guterman. Mas isso é muita bola de cristal…

Pois é, quem disse que seria fácil? Continuemos. Note que nesse cenário, no início, a SELIC passa à frente da rentabilidade da NTN-F, aparentemente sendo melhor ter a LFT. Mas, depois de algum tempo, a SELIC perde terreno, e passa a render menos. No total, qual terá sido a melhor estratégia? A NTN-F ganha até o vencimento, rendendo 95,57% contra 80,64% da LFT, uma diferença de 8,32%, ou 1,40% ao ano (considerando cerca de 5,7 anos até o vencimento). Nada mal, não é mesmo? Observe que, neste caso, a análise de curto prazo poderia levar a uma decisão equivocada, dando mais peso para uma SELIC mais alta, mas esquecendo que isso não é para sempre, se o BC faz a sua lição de casa direitinho. Vamos agora ver um segundo cenário.

2) Cenário “Banco Central não-tô-nem-aí”: neste cenário, o BC não se importa de perder a meta de inflação de 2012, se isso for condição necessária para não desacelerar a economia. Por isso, dá mais um aumento de 0,25% na SELIC, e para. Qual a consequência disso? Provavelmente, a manutenção desse nível de SELIC durante um tempo muito mais prolongado do que no cenário anterior. Digamos que seja até o final de 2013, para depois começar a derrubar até os mesmos 10% do cenário anterior, com cortes sucessivos de 0,50%. Vamos assumir que, neste cenário, a inflação não sai do controle, voltando a convergir para a meta e permitindo que o BC corte os juros. Neste cenário, a rentabilidade acumulada da LFT seria maior que no anterior: 84,66%. A NTN-F ganha da LFT 5,96% no período, o que dá uma rentabilidade extra anual de 1,01%. Mas a coisa pode piorar ainda mais…

3) Cenário “Banco Central perde o controle”: aqui também o BC não se importa de perder a meta de inflação também em 2012. Mas à diferença do cenário anterior, a inflação não converge posteriormente, e continua se afastando da meta: 7%, 8%, 9%… Quando o BC acorda, precisa dar um choque de juros. Digamos que isso aconteça no final de 2012. Então o BC começa a subir os juros até atingir o patamar de 16% em abril de 2013, mantendo esse nível até o final desse ano. A partir daí, com a inflação já sob controle, o BC começa a derrubar a SELIC até os mesmos 10% dos dois cenários anteriores. Neste cenário bastante ruim, com a SELIC nas alturas durante um tempo bem razoável, a LFT vai render 97,31%. Ou seja, a NTN-F perde 0,83% da LFT neste cenário.

Para que você possa comparar melhor esses três cenários, veja nos gráficos abaixo o nível da SELIC e a rentabilidade acumulada em cada um deles, sempre comparando com a NTN-F:

Claro que você pode pensar em outros cenários, piores ou melhores do que esses três. Mas note que, mesmo em um cenário em que a SELIC vai a 16%, a NTN-F perde muito pouco da LFT, o que parece indicar que o atual nível da taxa da NTN-F aguenta ainda muito desaforo do Banco Central. Mas não é bem assim: para você optar por um papel prefixado, você deve exigir uma rentabilidade maior que a esperada para a SELIC. Uma espécie assim de “prêmio” pelo risco que você está correndo por estar prefixando a sua rentabilidade para os próximos quase 6 anos. Não há uma regra clara, mas 0,5% ao ano parece ser razoável como prêmio. Em nosso exemplo, os cenários 1 e 2 proporcionam mais do que esse prêmio, ao passo que o cenário três, não.

Façam suas apostas!

Crédito do thumbnail: FreeDigitalPhotos

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10 Comentários

  1. ottorino disse:

    Eu atualmente tenho investido no BB renda fixa LP 90 mil com taxa de 0,80%, este ano atè fine Majo o ganho è de 3,95%. Tenho bastante dineirinho no LCA com ganho liquido de 0,72% ao mese. Agora eu gostaria de iniciar investir no fundo BB indice de preço estilo com carteira de 95,5% NTN-B, 2,11% NTN-C, 1,25% Debenture, Restante Op. Compromissada Over, que nos ultimos 4 meses tem um ganho de 9% com taxa de 1% ao ano. Gostaria de aplicar no fundo BB Renda Fixa Prè LP Estilo con carteira formada de 33,59% Op. compromissada Over, 28,50% NTN-F, 24,07% LTN, 3,44% LFT, e outro a completar 100%, Vc me pode dar um conselho? Muito obrigado

  2. HUGO disse:

    nA PERGUNTA DO MILHAO:

    OBTEREMOS MAIS OU MENOS QUE OS 95,67 DO NTN-F?

    NAO SERIA 95,67 DO LFT?

    GRATO

    • Marcelo Guterman disse:

      Hugo, na verdade é a NTN-F mesmo. O que estava errado, e já corrigi, é a remuneração de 95,67% da LFT, que simplesmente não existe. Leia lá novamente, e veja se agora faz sentido. Obrigado por sua colaboração!

  3. Paulo disse:

    Caro Guterman, só uma dúvida: no seu post está escrito no quinto parágrafo: “e receberá uma remuneração de 12,41% ao ano ou 0,0464% ao dia”. Será que a conversão de taxas não seria: uma remuneração de 12,41% ao ano ou 0,0325% ao dia:”. Grato pela atenção.

    • Marcelo Guterman disse:

      A conta está correta, Paulo. Você deve tirar a raiz de 252 da taxa (no mercado, consideramos que o ano tem 252 dias úteis). Assim, temos: [(12,41/100+1)^(1/252)-1]*100, o que dá 0,0464%.
      Obrigado pela participação!

  4. Marcelo Guterman disse:

    Rodrigo, desenhar cenários para as taxas de juros é realmente complicado, ainda mais considerando o prazo de vencimento do título, no caso 2017. Uma outra forma de raciocínio seria o seguinte: considere que um título prefixado com vencimento em janeiro de 2017 está pagando 12,30% ao ano. Considerando uma meta de inflação de 4,5%, isso significa um juro real de aproximadamente 7,5% ao ano. Bastante alto, muito alto mesmo, para um país que é investment grade. Portanto, se você aposta que as taxas de juros reais vão convergir para níveis mais civilizados, então ganhar 7,5% ao ano parece muito bom. Claro, você pode pensar que a inflação não será 4,5%, mas 5,5% de hoje até 2017. Seria uma espécie de BC mais frouxo durante muito tempo. Mesmo assim, a taxa de juros real seria de 6,5% ao ano, ainda muito alta. Você pode pensar em inflação ainda mais alta, o que já é um cenário de fracasso total do BC. Neste caso, melhor é ficar na LFT mesmo. Esta é uma outra forma de raciocínio, que funciona para títulos de mais longo prazo, e evita ter que desenhar cenários para a trajetória da SELIC, que é uma tarefa inglória.
    Respondendo à sua questão específica, se você acredita que a SELIC vai rodar entre 12% e 13% até 2015, o melhor é ficar na LFT mesmo.
    Abraço!

  5. Rodrigo disse:

    Guterman,

    ótimo artigo sobre TD, muito didático inclusive para leigos. Eu tinha e ainda tenho dúvidas relacionadas a estes tipos de cenários, para tentar descobrir qual a melhor opção (prefixado ou Selic), mas o cenário que tenho em mente não se enquadra exatamente nestas opções.
    Imagino ser factível (e mais provável, dentro do meu achismo de iniciante), um controle robusto do BC, parecido com o cenário "durão", mas com uma persistência da pressão inflacionária, requerendo um acompanhamento próximo. Talvez uma elevação até cerca de 13% até o final de 2012 (dado que a última previsão hoje, dia 06/jul, para fechamento de 2012 é de 12,5%), e depois uma manutenção de taxas elevadas, talvez com pequenas variações para baixo até 12% por uns 2 anos, ou seja, variando entre 12% e 13% até 2014, 2015. Imaginei isso ser possível pelo fato de termos os eventos esportivos próximos, que queira ou não vão mesmo impulsionar nossa economia mais ainda.
    Ainda assim o prefixado suponho que seria mais rentável.
    De qualquer forma, vincular à taxa Selic só compensaria em um cenário crítico de elevação a 13% ou mais, e manutenção acima de 13% por um bom período (acho possível, com probabilidade considerável).
    Não há garantias que chegar a 13%, 14%, a inflação cederá a ponto de poder cortar os juros tão rapidamente até 10%.
    O que acham?

  6. Marcelo Guterman disse:

    Bem, não vou dizer que não dá, porque no Brasil já vimos de tudo. Mas fica difícil imaginar algum crescimento econômico com juros reais de 18% ao ano…

  7. Roberto Pina Rizzo disse:

    Eu gostaria que os juros chegassem a 20% ao ano, inflação a menos e 2% anual e crescimento econômico acima de 5%. Dá?

  8. EvertonRic disse:

    Guterman, este comentário vale pra os dois excelentes artigos sobre TD.
    Eu prefiro diversificar. Acho que o melhor mesmo é comprar um pouco de cada. Assim estamos buscando mais segurança através da diversificação, e claro, diminuindo o risco.
    Abraços.

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