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Blog Seus investimentos

Bolsa: é pra comprar ou pra vender?

Veja as seguintes manchetes de alguns dos principais jornais brasileiros:

Estado de São Paulo: BC Europeu e G7 intervêm para tentar conter crise global

Folha de São Paulo: Países do G20 decidem manter títulos dos EUA (a dívida norte-americana havia sido rebaixada no dia anterior)

Valor Econômico: Ação global tenta acalmar mercados

Você compraria bolsa depois de ler essas manchetes? Os poucos que se aventuraram não têm do que reclamar. Estas manchetes foram publicadas no dia 08/08/2011, o dia em que o Ibovespa atingiu a mínima do ano (48.668 pontos). Desde então, subiu 31%, para 63.997 pontos (até 10/02/2012). Nada mal, não é mesmo?

Muitos investidores continuam surpresos com a recente alta da bolsa. Mesmo sem considerar o ponto de mínimo do ano passado, o Ibovespa subiu 12,8% só neste ano. Houve uma melhora do quadro geral, é verdade, mas nada que fizesse supor uma virada como a que tivemos. Na verdade, ainda são muitos os que duvidam dessa virada, e continuam com as suas barbas de molho. Deixaram de ganhar 30%, mas ainda não estão confiantes de que o cenário tenha realmente virado. Esperam por mais evidências.

Este não é um blog de “dicas” no sentido de tentar “adivinhar” para onde vai a bolsa. Aliás, pelo contrário. Humildemente reconheço que não sei se a bolsa vai continuar subindo, ou se vai voltar de onde veio com o rabo entre as pernas. A única coisa que tenho para oferecer aos meus leitores é um conselho: não tente acertar o momento certo de entrar ou sair da bolsa. Isso é impossível. Mesmo porque, os elementos que temos para tomar esta decisão são de domínio público: as manchetes dos jornais, as análises dos especialistas, as dicas dos gurus. Por que você teria vantagem sobre todos os outros investidores?

A este respeito, vem bem a calhar a análise que Nicholas Taleb faz em sua já clássica obra The Black Swan. Ele critica a tendência que todos temos, em qualquer campo do conhecimento humano, de contar histórias que sirvam de justificativa para os acontecimentos. Segundo Taleb, os acontecimentos têm um componente aleatório e não previsível muito maior do que queremos admitir. Ele dá um exemplo curioso, envolvendo duas manchetes da Bloomberg no dia em que Sadam Hussein foi capturado. A primeira, às 13:01, dizia: “US Treasuries sobem; a captura de Hussein pode não deter o terrorismo“. Às 13:31, outra manchete: “US Treasuries caem; captura de Hussein aumenta a atratividade dos ativos de risco“. Bem, como um mesmo fato pode justificar dois movimentos opostos? É simples de explicar, se você reconhecer que o movimento das treasuries e a captura de Sadam Hussein são dois eventos sem correlação entre si. Claro que sempre se pode contar uma história que faça sentido; mas daí achar que a história DE FATO é determinante para o movimento de preços, vai uma grande distância. O ponto que muitos investidores resistem em admitir é que o movimento da bolsa no curto prazo é causado por uma infinidade de fatores, muitos deles aleatórios, e não por apenas uma ou duas histórias bonitas.

Um outro exemplo, mais recente: no dia 25/01, o Federal Reserve publicou a ata da reunião de janeiro, que manteve as taxas de juros em zero. No documento, promete manter as taxas de juros no nível do mar até o final de 2014, e não mais meados de 2013, como anteriormente. Pois bem: se o mercado estivesse de mau humor, leria esta notícia de maneira negativa: “se o FED esta fazendo isso, é porque está vendo a coisa muito mais preta do que aparenta. Portanto, vamos vender”. Mas, ao contrário, a notícia foi lida de maneira positiva: “com as taxas de juros baixas por mais tempo, os ativos de risco ficam mais atrativos. Portanto, vamos comprar”. E as bolsas subiram como se não houvesse amanhã.

Então, para aqueles que buscam sofregamente notícias para comprar ou vender bolsa, ofereço o Roteiro da Subida da Bolsa, originalmente publicado no post Bolsa e Aquecimento Global, do dia 03/06/11, quando a bolsa estava em 64.340. Ou seja, no mesmo nível de hoje. Continua valendo.

1. A bolsa vem caindo (ou não subindo) há muito tempo, ou levou um tombo muito forte de uma só vez. Exemplo do primeiro caso é o que estamos vivendo no momento. Exemplo do segundo caso é o que aconteceu após a quebra da Lehman Brothers, em outubro de 2008.

2. Em determinado momento, o investidor bem informado considera que as ações estão muito baratas, fora de preço. Esta conclusão não acontece da noite para o dia, ela vai se formando aos poucos. Assim, alguns investidores bem informados começam a entrar na bolsa antes de terminar a queda, outros (poucos) acertam na mosca, e outros começam a entrar depois que a bolsa atingiu o seu ponto mais baixo. Na verdade, o investidor bem informado procura não concentrar suas compras em um único ponto do tempo, pois tem consciência de que é muito difícil acertar exatamente o momento da compra. Na medida em que vai ganhando convicção na “barateza” da bolsa, começa a comprar.

3. Neste primeiro momento, o investidor psicológico está looooooonge da bolsa. Tudo é pessimismo. Imagine entrar na bolsa neste momento, em que estamos no meio de uma crise.

4. Aos poucos, os investidores bem-informados começam a levantar a bolsa. Vendo a bolsa subir de seus pontos mínimos, os últimos vendedores psicológicos, que estavam esperando um “suspiro” da bolsa, vendem suas posições para os investidores bem-informados.

5. Não tendo mais vendedores psicológicos, a bolsa começa a recuperar-se, com os investidores bem-informados ganhando convicção e comprando.

6. Agora que a bolsa afastou-se de verdade de seus pontos mínimos, os investidores bem-informados começam a ficar seletivos nas suas compras, vendendo papéis que ficaram caros e comprando outros que ainda não subiram. Os primeiros investidores psicológicos começam a sentir um calorzinho gostoso, e arriscam a volta.

7. Os investidores bem-informados começam a achar a bolsa meio cara, e começam a se desfazer de suas posições. Sempre aos poucos, pois os investidores bem-informados não têm a pretenção de acertar na mosca. Os investidores psicológicos começam a entrar em maior número.

8.  A bolsa retoma o processo de alta firme, inequívoca. O otimismo toma conta. Os investidores psicológicos, que perderam quase toda a alta, não aguentam ficar fora da festa, e compram aos bandos. Compram as últimas posições dos investidores bem informados.

9. A euforia da bolsa sai na capa da Exame. É o fim.

 

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1 Comentário

  1. http://alemdapoupanca.blogspot.com/ disse:

    Excelente postagem.
    O que acontece é que o mercado de ações no longo prazo independe de decisões de curto prazo. No longo prazo prevalence a máxima de que se a empresa que você se tornou sócia está ou não mais lucativa do que o passado. Se está, a cotação subirá, e vice-versa.
    O que aprendemos com o passado é que o homem não aprende com o passado. Não sei quem disse esta ilustre fease, mas é a pura verdade. Já passamos por diversas crises nas potências mundiais, recessões, duas guerras mundiais, crise no petróleo, commodities, inflação, ditaduras, e o mundo prosseguiu. Por que esta crise seria diferente?
    Quem comprou ações de boas empresas nessas épocas conturbadas se aproveitou da queda nos preços e conseguiu excelentes remunerações.
    E é exatamente como o Guterman falou. É impossível acertar o momento certo de entrar ou sair da bolsa. Na minha opinião, o momento de entrar é sempre.

    Abraços

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