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A (inútil) busca pela vida eterna

O importante é ter saúde, o resto se arruma.

Este dito popular é daqueles diante dos quais o nosso raciocínio é dispensado, tal o senso comum que carrega. De fato, ninguém, em sã consciência, se oporia a algo aparentemente tão óbvio. E quem sou eu para discordar. Pelo contrário: gostaria aqui de explorar um pouco mais o que está por trás desta frase, os seus pressupostos e consequências não explicitadas, mas apenas subentendidas.

Para começar, observe bem o contraste evidente entre a saúde e o resto. Este contraste é o seguinte: a saúde é preciso “ter”, enquanto o resto se “arruma”. Ou seja, o resto está nas nossas mãos arrumar, arranjar, comprar, conseguir. Mas a saúde não. A saúde não se pode arrumar, arranjar, comprar, conseguir. A saúde, ou se tem, ou não se tem. A saúde, neste frase, é quase como que uma dádiva divina.

No entanto, agimos, na prática, como se isso não fosse assim. Pretendemos “arrumar” a nossa saúde. Fazemos exames periódicos. Vamos ao médico (alguns dizem que evitam os médicos para não ficarem doentes, mas acho que não passa de intriga da oposição…). Procuramos ter uma alimentação saudável. Fazemos ginástica. Tudo isso para “comprar” saúde.

Claro, nem 8, nem 80. A saúde não é um bem que se possa adquirir de maneira absoluta, como quem adquire um automóvel. Quem compra um automóvel tem 100% do automóvel. Não 99% ou 99,9999%, mas 100%. Por outro lado, aqueles que cuidam de sua saúde têm uma probabilidade maior de gozarem de boa saúde, mas não 100% de probabilidade. A ninguém é dado comprar 100% de saúde. Há doenças que simplesmente nos escolhem, por melhor que seja o nosso preparo físico.

Pois bem, a luta do ser humano, hoje, é por aumentar a posse de saúde, o mais próximo possível dos 100%. E a medicina, hoje, consegue entregar um percentual de saúde muito maior que no passado. Uma prova disso é a expectativa de vida da população. Mesmo as pessoas que vivem hoje nos países mais pobres têm uma expectativa de vida superior às pessoas que viviam há um século nas nações mais desenvolvidas. E as pessoas das nações mais ricas têm uma expectativa de vida inimaginável há, sei lá, 50 anos.

Ocorre que aumentar a posse de saúde envolve recursos financeiros. Uma pessoa mais rica, na média, terá à sua disposição mais recursos para aproximar-se dos 100% de saúde do que uma pessoa mais pobre. E isto se dá tanto no nível dos indivíduos quanto no das nações. No entanto, em um mundo globalizado, onde a informação flui quase que instantaneamente para todos, os avanços da medicina parecem estar ao alcance de todos. E os governos populistas não fazem questão de dizer a verdade ao povo: que somente os ricos terão acesso às últimas tecnologias desenvolvidas. Neste e em todos os outros campos do conhecimento.

Consideremos a atual e polêmica questão da falta de médicos no Brasil. De fato, há rincões onde não há médicos disponíveis. Os médicos alegam que, por melhores que sejam os salários oferecidos, não há condições técnicas para se exercer a medicina dignamente. Não será que se está exigindo uma infraestrutura somente possível em países com renda per capita de US$ 40 mil, quando estamos vivendo em um país com renda per capita de US$ 10 mil? Claro, há aqui uma zona cinzenta, onde por condições dignas de trabalho se entenda somente um ambulatório onde não corra esgoto a céu aberto, o que é plenamente possível em um país com a nossa renda. Mas pode ser, sim, que se esteja exigindo, para exercer a medicina, que se tenha um aparelho de tomografia em cada cidade, o que é materialmente impossível no Brasil. O ponto é: não se consegue, em um país pobre como o Brasil, exercer a medicina de ponta para toda a população.

Um outro exemplo, este mais relacionado com o nosso dia a dia: os planos de saúde. É cada vez menor o número de empresas que oferecem planos de saúde individuais. E o motivo é simples: os custos hospitalares sobem de acordo com os avanços da medicina, mas as mensalidades dos planos sobem de acordo com o populismo do governo de plantão. Não há operação que consiga sobreviver desse jeito. E o governo já conseguiu tudo, menos obrigar uma empresa a operar com prejuízo.

O ponto fundamental aqui é o seguinte: é preciso verdadeiramente aceitar que não conseguiremos 100% de saúde. Não apenas racionalmente, mas emocionalmente também, o que é o mais difícil. Os custos de manter a saúde crescem exponencialmente com o passar dos anos. Digamos que manter a saúde aos 80 anos seja duas vezes mais caro do que manter a saúde aos 70. Pois bem: manter a saúde aos 90 é dez vezes mais caro do que manter aos 80, e manter a saúde aos 100 é cinquenta vezes mais caro do que manter aos 90. Os custos vão ficando proibitivos, e é inútil lutar contra isso. No limite, somente um milionário excêntrico conseguiria congelar o seu corpo, à espera da descoberta da cura de sua doença hoje incurável. Parece, inclusive, que há alguns milionários congelados por aí…

Vejo muitas pessoas preocupadíssimas em planejar a sua velhice, de maneira a ter como pagar um plano de saúde que aumente a posse de saúde o mais próximo possível dos 100%. Sem prejuízo de que é muito recomendável guardar alguma coisa para o futuro, para assim diminuir o peso sobre os descendentes, essa preocupação com a saúde parece-me beirar a inutilidade. Ou melhor, a luta inglória contra o destino. É preciso ter consciência de algo óbvio: vamos morrer de alguma coisa, e sempre será, do nosso ponto de vista, cedo demais.

Para terminar: uma forma muito mais inteligente e barata de obter saúde é cuidar dela logo desde cedo. Alimentação saudável e exercícios físicos como hábito de vida vão fazer milagres na velhice. É uma forma de economizar dinheiro com saúde, ou, por outra, de fazer com que o mesmo dinheiro obtenha um percentual maior de saúde. Que nunca, em nenhum caso, será de 100%.

Crédito do thumbnail: Digital Free Photos / Cuteimage

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4 Comentários

  1. Allan disse:

    Como bom economista Marcelo, tente fazer uma conta aqui comigo:

    O governo federal gasta hoje cerca de R$ 110 bilhões com saúde, cerca de R$ 600 por ano/habitante. Para cada 1000 habitantes são gastos 600.000,00 ou seja, R$ 50.000/mês. Se colocássemos, como governo quer, 3 médicos/habitante, recebendo como o governo afirma, R$ 8.000,00 mensais bruto (já incluindo férias, 13º salário, FGTS – o que daria algo como R$ 5000,00 líquido), gastaríamos R$ 24.000 só com médicos. Sobraria R$ 26.000 para contratar os demais membros da equipe de saúde, como dentistas, enfermeiros, nutricionistas… Se a vinda de médicos for acompanhada pelo aumento nos investimentos em saúde, ficarei satisfeito. Porém o objetivo oculto na vinda de médicos cubanos é apenas atender o interesse das prefeituras do norte e nordeste, reduzir os gastos de saúde com médicos.

    É inconcebível se gastar R$ 110 bilhões com saúde, sendo que o Judiciário brasileiro gasta 55 bilhões por ano. Porém temos 282.000 médicos no serviço público, contra apenas 16.000 juízes.

    • dimarcinho disse:

      Allan,

      pode explicar melhor a conta? E 3 médicos/habitante está errado, né? Digo, é pra ter mais médico que habitante? rsrsrs

  2. João disse:

    Acho que o melhor comentário ao seu comentário é com um outro dito popular: “em terra de cego, quem tem um olho é rei”.
    De fato não se consegue (e neste momento nem se pretende) exercer medicina de ponta para toda a população, num país como o Brasil (aliás, nem num país como os EUA).
    O que se pretende (neste momento) é justamente não ter mais rincões onde não haja médicos, mesmo que para exercer a medicina possível, tipo médico de família; é conseguir aliviar os poucos hospitais existentes em algumas regiões, das pequenas cirurgias e tratamentos que podem ser feitos em domicílio; é disseminar hábitos de higiene e profilaxia, que vão desembocar em uma menor incidência de doenças, no futuro.
    Portanto, dizer que não há condições técnicas para exercer a medicina dignamente, é dizer meia verdade.
    Em qualquer caso, é melhor fazer o possível do que não fazer nada.

    • Allan disse:

      João, imagine um município de 10.000 habitantes. Este município recebe do SUS algo como R$ 600/habitante, o que daria cerca de 6.000.000/ano. Se contratássemos com este dinheiro 2 médicos para cada 1.000 habitantes, com um salário de R$ 8.000 brutos, ou seja 100.000 anuais, teríamos 20 x 100.000 = R$2.000.000,00, ou seja 33% dos gastos de saúde do município

      Você já viu alguma prefeitura em uma cidade de 10.000 habitantes empregar 20 médicos? Não, o máximo que faz é empregar 3 ou 4 profissionais aonde deveria ter 20. E os demais profissionais, dentistas, enfermeiros, nutricionistas… Então o que acontece são prefeituras que contratam 2 ou 3 médicos no máximo, e os sobrecarregam de trabalho. De que adianta receber R$ 30.000 e ser o único médico em uma cidade de 10 mil habitantes? Você morre de trabalhar 24/7 nos 365 dias do ano!

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